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“Manas Pintarolas” é
como os amigos se dirigem, carinhosamente, às irmãs Can
Texto
e fotografias actuais de Pedro Palma
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Edna e Nádia são um caso raro de
Lentiginose Generalizada e as únicas
na família a exibirem o corpo coberto por sardas.
Nádia, 25 anos, e Edna, 21, têm o corpo
decorado por grandes sardas, excepto nas palmas das mãos e nas
plantas dos pés. Não têm cabelo ruivo nem a pele clara, como seria
de esperar numa pessoa sardenta vulgar. São as mais novas de quatro
irmãs e as únicas com o corpo coberto por esta pigmentação que as
torna pessoas diferentes, ou miúdas “com muita pinta”, como gostam
de se lhes dirigir os amigos mais próximos.
A mãe, Agostinha de Andrade, 59 anos,
tem o mesmo problema embora menos acentuado. Na mãe, as
características físicas aproximam-se mais das de uma sardenta
vulgar, com pele clara e cabelo arruivado. «Com o decorrer dos anos,
as manchas tendem a diminuir, em quantidade e intensidade», diz. O
pai, Nazir Can, 66 anos, é mestiço de indiano com negro, mas o
dermatologista Luiz Leite assegura que «a raça do pai das raparigas,
ainda que misturada com a lentiginose incompleta da mãe, nada tem a
ver com o extremamente invulgar aspecto das irmãs Can. A origem
desta malformação está apenas e exclusivamente na família materna!».

Copyright: Pedro Palma


Não sendo, propriamente, um problema de
sardas vulgares (efélides), os casos de Edna e Nádia provocam muitas
vezes as reacções mais estranhas. Desde os meninos que se assustam e
perguntam à mãe «o que é aquilo?», passando pelas pessoas que pensam
ter mezinhas para tudo e as aconselham a lavar-se com limão, e há
até quem sugira que ambas «se pintaram para a fotografia».
Desde pequenas que Nádia e Edna se
habituaram à observação dos médicos que, na maioria e à primeira
vista, temiam que ambas padecessem de Síndrome LEOPARD, extremamente
rara e que tem associadas várias patologias e malformações. Mas o
diagnóstico acabou por se revelaroutro: «Não existindo nenhuma das
patologias que formam a palavra LEOPARD, estamos perante um caso
extremamente raro de Lentiginose Generalizada bastante acentuada, em
tudo semelhante à sídrome mas sem nenhuma outra alteração»,
sentencia Pinto Soares, director do Serviço de Dermatologia do
Hospital do Desterro, em Lisboa, que confessa, ainda, que nos seus
35 anos de carreira nunca viu um caso parecido. (ver caixa, página
60).
As sardas só se
manifestaram após o nascimento
e evoluíram bastante nos três primeiros anos
Visto que os resultados de testes não
indicam anomalias, estas duas irmãs apenas têm uma malformação
genética, extremamente rara (pode ser única em Portugal), e não há
registos que possam indicar um número aproximado de casos no mundo
inteiro. Apenas se sabe que tem características de hereditariedade,
com possibilidades de se verificar nos descendentes ou em alguns dos
descendentes, mas de forma aleatória (tendo apenas como referência o
caso das irmãs Can desde há três gerações). no caso da mãe – a nona
de dez irmãos (sete rapazes e três raparigas) -- , foi a única com
sardas acentuadas. Agostinha teve duas filhas sem qualquer anomalia
a este nível (Carla e Sílvia) e, apesar de um médico sul-africano
lhe ter afirmado que «não via razões que indicassem que poderia vir
a ter filhos com o mesmo problema», a verdade é que as suas duas
últimas filhas nasceram com a anomalia genética, mas muitíssimo mais
acentuada e com características diferentes das da mãe. Esta
desorganização cromossomática poderá levar a que futuros filhos das
duas irmãs sem o problema (Carla e Sílvia) nasçam com as
características dermatológicas de Nádia e Edna, mas não há, de um
modo científico, maneira de indicar essa possibilidade de forma
percentual. «Numa família maioritariamente de calvos eu tenho esta
cabeleira farta, mas nada pode garantir que os meus filhos e netos
não venham a ser calvos», explica o dermatologista Luiz Leite,
referindo-se a si próprio. «Mistérios do genoma!». Tal como Pinto
Soares, Luiz Leite também admite nunca ter visto, nem ter
conhecimento a nível internacional, de um caso assim de Lentiginose
Generalizada tão ampla e intensa.
VIDAS NORMAIS
No caso destas irmãs, as sardas só se
manifestaram após o nascimento – aos seis meses de Nádia e aos 12
meses de Edna – e evoluíram bastante nos primeiros três anos. Nádia
diz que hoje tem menos sardas do que há cinco anos. Considerando o
caso de Edna, poderia concluir-se, com base na regressão invocada
pela mãe e pela irmã, que está agora na fase máxima de densidade
lentiginosa, podendo a situação começar a inverter-se. Comparando
fotos de infância com as actuais, nota-se que certos lentigos
desapareceram ou deram lugar a novos, e outros continuam no exacto
lugar onde apareceram. No entanto, o dermatologista Luiz Leite
contraria esta versão, afirmando que «é impossível que uma
Lentiginose Generalizada possa ser regressiva!».


Edna é estudante do terceiro ano de
Engenharia Biomédica no Instuto Superior Técnico de Lisboa. Foi no
primeiro ano do curso que se isolou mais pelo facto de ser
diferente, apesar de confessar nunca ter sofrido qualquer tipo de
rejeição por parte dos colegas. Namora mas não tem planos para
constituir família e, pelo menos para já, a possibilidade de vir a
ter filhos com o seu aspecto não é coisa que a preocupe. Tal como a
irmã, com quem divide o apartamento. Nádia é formada em Psicologia
Social e das Organizações pelo Instituto Superior de Ciências do
Trabalho e da Empresa (ISCTE). Actualmente está a fazer um
doutoramento no ISCTE, com uma bolsa de investigação da Fundação
para a Ciência e Tecnologia (FCT). O seu projecto, «Percepções de
Justiça, Comportamento de Ajuda e Voluntariado», já diz muito sobre
o que lhe vai na alma: Nádia gostaria de trabalhar como voluntária
numa organização internacional de ajuda humanitária, sendo África o
destino preferido.
Comparando fotos antigas com
actuais,
nota-se que há lentigos que desapareceram
ou deram lugar a novos
Joana Russinho, de 26 anos, também
psicóloga e amiga de Nádia, salienta como é gratificante ter uma
amiga assim: «A Nádia tornou-se quase uma irmã, cúmplice,
companheira. Já faz parte da família, até porque lá em casa somos
poucos e os meus pais e irmã apegaram-se muito a ela. Aproveitar o
tempo livre sem a Nádia parece impensável, assim como rir ou
chorar!». Alexandre Lopes, amigo de Edna, quando viu uma imagem
tratada digitalmente com a intenção única de remover as sardas do
rosto das irmãs, comentou: «Iria precisar de tempo para me adaptar à
nova imagem!». Outros amigos contactados foram da opinião que «sem
manchas não são as mesmas pessoas!» e são unânimes que as preferem
ver assim. As irmãs, que manifestaram alguma curiosidade em ver o
seu aspecto sem as sardas, soltaram gargalhadas perante o resultado
da manipulação da imagem e não se identificaram com o resultado.
Ambas foram peremptórias: mesmo que houvesse um tratamento para
eliminar as «pintas», nunca o fariam. «Essa não sou eu!», afirmou
Nádia ao ver a imagem tratada em computador.
Paulo Soska, de 21 anos, estudante de
Relações Internacionais e amigo íntimo de Edna diz: «A Edna, pela
sua maneira de estar no mundo, sempre me deu a entender que é uma
lutadora e que irá atingir os seus objectivos, sem nunca descurar os
sentimentos daqueles que a rodeiam!». A propósito do aspecto da
amiga, acrescenta: «Com ou sem sardas, a Edna seria a mesma pessoa,
pelo que a nossa relação não sofreria mudanças. No entanto, dou
preferência ao seu “look” sardento!».
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O que é a
Síndrome LEOPARD?
Cada letra que
constitui a palavra LEOPARD representa a inicial, em
inglês, de cada uma das anomalias associadas à síndrome:
Lentigos múltiplos (manchas tipo sardas); alterações
electrocardiográficas; hipertelorismo (olhos salientes ou
demasiadamente espacejados entre si); estenose pulmonar,
obstrução da saída do fluxo sanguíneo normal da câmara
inferior direita (ventrículo) do coração; anormalidade nos
órgãos genitais; retardamento do crescimento e “Deafness”
(surdez) devido ao mal funcionamento do ouvido interno
(surdez neurossensorial). A Síndrome LEOPARD é uma
desordem hereditária extremamente rara e, em muitos casos,
parece ocorrer esporadicamente e de forma aleatória por
razões desconhecidas. Porém, noutros casos parece ser
herdada como traço autossómico dominante.
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