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Oh,
Jerusalém
Reportagem de: Pedro Palma
Publicada na Magazine-Grande Informação de Março (Nº4) de 2006.


Que povo é este? Unido por uma crença, uma
religião. Uma nação de dimensões bíblicas. Que povo é este,
espalhado por todo o mundo? Com uma cultura e língua próprias. Que
povo é este, que, perseguido e atacado conquistou condições
excepcionais de sobrevivência?

“No princípio Deus criou os céus e
a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e
o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas”.
Assim começa o Génesis, o
primeiro do conjunto de cinco livros – Pentateuco para os
cristãos, Tora para os judeus. Dado, por inspiração divina, a
Moisés, no monte Sinai quando este, por volta do ano 1200 a.C., uniu
as tribos nómadas semitas num único povo, o hebreu, e, ao longo de
40 anos, liderou o êxodo do Egipto, levando-o em direcção à Terra
Prometida por Deus, atravessando o Mar Vermelho, e ajudando o seu
sucessor, Josué (Joshua) a conquistar a terra de Canaã – Judeia e
Samaria, Antiga Palestina – a que os judeus chamaram Israel. Mas a
história do judaísmo começa muito antes, no segundo milénio a.C.,
com os patriarcas Abraão, o seu filho, Isaac, e o seu neto, Jacob. É
este mesmo Jacob e os seus filhos – os antepassados das 12 tribos de
Israel – que perseguidos pela fome, emigraram para o Egipto. E, aí,
começa a primeira grande tormenta deste povo. Escravizados pelos
faraós, os hebreus só pensam em voltar a casa, à terra dos seus
antepassados. Mas vão ter de esperar vários séculos até que Moisés –
o bebé abandonado pela mãe nas águas do Nilo e salvo por Deus para
resgatar o seu povo – os guie para a liberdade. É no deserto do
Sinai, ao longo de 40 anos de duras provas, defendem os
historiadores, que os judeus tomam consciência de si próprios
enquanto nação. Agora, são milhares de anos de história com várias
personagens e passagens lendárias que constituem a base duma
cultura.

No primeiro século d.C. houve várias
grandes facções a disputar a liderança dos judeus. Fariseus,
saduceus, zelotas e essenos digladiavam-se entre si. Quase todas
estas facções – ou seitas – procuravam, de forma diferente, uma
“salvação messiânica”, descendente de David – de acordo com a
Bíblia. Destes grupos, apenas o dos fariseus sobreviveu
ideologicamente. Os rabinos rapidamente tomaram o controlo da
religião, e foram eles que deram origem a todas as seitas judaicas
da actualidade.
Durante quase dois mil anos, os judeus
espalharam-se por todo o mundo ocidental criando comunidades
fechadas, como forma de protecção da sua fé e da sua cultura. Viviam
segundo as rígidas leis da Tora e, muito provavelmente por
isso, conseguiram prosperar e resistir a um nunca acabar de
adversidades, formando uma comunidade unida e com poder económico. A
“Terra Prometida” foi invadida inúmeras vezes mas o sonho do
regresso nunca esteve ausente do espírito dos judeus durante a
diáspora.
O domínio romano de Jerusalém iniciou-se
em 63 a.C., quando a cidade foi tomada por Pompeu. Jerusalém
tornara-se capital do reino de Heródes, que lançou uma série de
projectos que visavam restaurar Jerusalém e ganhar a simpatia dos
judeus. Decretou o restauro do Templo – destruído por Nabucodonosor
II da Babilónia. Foi, aliás, este templo, restaurado por Heródes que
Jesus Cristo conheceu e visitou.
Em 70 d.C., Tito, filho do imperador
romano Vespasiano, conquista e destrói Jerusalém como forma de
esmagar uma revolta iniciada quatro anos antes. O Templo foi
destruído, uma segunda vez, por um incêndio e dele só restou a
muralha ocidental que ficou conhecida como Muro das Lamentações. Em
132, inicia-se a revolta judaica de Bar Kokba, que durará até 135.
Com o esmagamento desta revolta pelos romanos, o imperador Adriano
ordena a interdição da cidade de Jerusalém aos judeus. Inicia-se a
diáspora.
Em 324, o imperador Constantino
cristianiza Jerusalém e manda construir várias igrejas, entre elas a
do Santo Sepulcro. Mais de um século depois, no período bizantino,
os judeus são autorizados a regressar à Cidade Santa. Em 614, a
invasão persa da cidade traduziu-se na destruição das muitas igrejas
existentes. Jerusalém retornaria às mãos dos bizantinos em 628, com
o imperador Heráclio, mas por apenas mais uma década.
O período islâmico tem início em 638,
com a conquista da cidade pelo califa Omar, e são construídas duas
mesquitas na zona do Templo: a Cúpula da Rocha e a mesquita de
Al-Aqsa, que ainda hoje existem. Com a ascensão do califa el-Hakim
ao poder, cristãos e judeus voltam a ser perseguidos e várias
igrejas destruídas. Jerusalém volta a ser conquistada em 1071, desta
vez pelos turcos seljúcidas e a igreja do Santo Sepulcro é
destruída. A perseguição aos cristãos não é tolerada pela Europa e
são enviadas as Cruzadas. Em Julho de 1099, Godofredo de Bulhão,
chefe da Primeira Cruzada apodera-se da cidade e declara-a capital
do Reino Latino de Jerusalém. A cidade volta a ser de maioria
cristã, tendo subido ao trono Balduíno I. São construídas novas
igrejas e reconstruídas outras.

A meio do século XIII, são os mamelucos
do Egipto que tomam Jerusalém e os judeus voltam à cidade. Em 1492,
com a expulsão dos Judeus de Espanha pela Inquisição, muitos mais
vão para a Palestina. Em 1517, chegam os otomanos, que vão ocupar o
território até 1917. No entanto, durante o domínio otomano, vive-se
um período de 400 anos de liberdade para as três religiões
monoteístas, onde judeus, cristãos e muçulmanos vivem em
tranquilidade. É neste período que são construídas as muralhas de
Jerusalém, mas o aumento demográfico, originado, também, pela
liberdade religiosa, obriga ao crescimento para fora destes muros.
Ao longo de todo estes séculos, houve sempre judeus em Jerusalém e
nos territórios que hoje constituem Israel e a Palestina. No
entanto, em meados do século XIX o número de judeus que “volta para
casa”, que se instala na terra dos seus antepassados, no país que
lhe foi prometido por Deus quando fugiram do Egipto, aumenta
significativamente. No fim do século XIX aparece o movimento
sionista. É um movimento nacionalista em resposta à cada vez maior
opressão e perseguição sofrida pelos judeus na Europa Oriental e
reflecte a desilusão dos judeus da Europa Ocidental, que, apesar de
todas as promessas e de todos os processos de intenção, continuavam
a ser descriminados e estavam longe de ser integrados nas sociedades
em que viviam. Em 1897, tem lugar em Basileia, na Suiça, o primeiro
congresso sionista, convocado por Teodoro Herzl. É aqui que se
constitui o movimento sionista enquanto organização política que
chama os judeus a regressarem a Jerusalém e à sua pátria ancestral.
Inspirados pelo sionismo, milhares de judeus partem de toda a Europa
em direcção a Israel. Nessa altura, uma parte descurada do Império
Otomano. Esta primeira vaga de colonos funda cidades, planta
terrenos áridos, seca pântanos e, sobretudo, e começa a usar o
hebreu – até aí circunscrito à literatura e liturgia – como a sua
língua diária.

Em 1922, a Sociedade das Nações
reconhece “a ligação histórica do povo judeu com a Palestina (Terra
de Israel)” e “as bases para reconstruir o seu Lar Nacional naquele
país”. Em consequência, concede à Grã-Bretanha um mandato para “pôr
o país em condições políticas, administrativas e económicas que
assegurem o estabelecimento de um Lar Nacional Judeu”. Meses mais
tarde a Grã-Bretanha estabelece o Emirado Árabe da Transjordânia em
três quartos do território a leste do rio Jordão (no território que
é hoje o reino da Jordânia), e deixou a parte ocidental para o Lar
Nacional Judeu. Muitos líderes árabes extremistas opuseram-se, desde
logo, ao estabelecimento de um Estado judaico na zona, ainda que
numa parte muito pequena do território. E a guerra começou logo aí.

Os ingleses impediram a chegada de mais
judeus, como forma de acalmar a situação. Mas nem isso melhorou a
disposição dos líderes árabes. Os focos de violência continuaram até
ao início da II Guerra Mundial. Durante este conflito morreram seis
milhões de judeus – um milhão e meio dos quais eram crianças – e
logo que a guerra acabou foi preciso encontrar uma solução para
ajudar aqueles que tinha sobrevivido ao Holocausto mas nem isso fez
com que a Grã-Bretanha levantasse as restrições à emigração de
judeus para a Terra Santa. É então que nasce a Aliá Bet, uma
organização clandestina que junta judeus de todo o mundo e que tem
como único objectivo ajudar a emigração ilegal para Israel. É assim
que 85 mil sobreviventes do Holocausto consegue chegar à Terra
Prometida.

A 29 de Novembro de 1947, a Organização
das Nações Unidas aprovou a divisão da Palestina em dois estados: um
judeu e um árabe. O plano previa que Jerusalém seria lugar de culto
para ambos e fosse administrada pela ONU. no traçado feito, 60 por
cento do território ficaria para os 40 por cento da população judia.
Imediatamente nessa altura, os árabes se opuseram à delimitação
arquitectada pelas Nações Unidas.
David Bem Gurion, um judeu polaco,
adepto fervoroso do movimento sionista, fundado por Teodoro Herlz,
era o líder de Israel na Guerra da Independência, tornando-se
primeiro-ministro em 25 de Janeiro de 1948. Foi fundador do Partido
Trabalhista. Bem Gurion, para além de um Estado queria, sobretudo,
o reconhecimento internacional de Israel como tal e sabia que tinha
de ser os Estados unidos a fazer esse reconhecimento em primeiro
lugar. Efectivamente foi o que aconteceu quando o jovem país estava
a sofrer violentos ataques. O Exército da Jordânia entrara em
Jerusalém e tomou a zona oriental (onde se situam os locais
sagrados), enquanto que as tropas de Israel tomaram a zona
ocidental, onde se situava o centro económico e as novas zonas
residenciais judaicas. Os Estados Unidos reconheceram o novo Estado
e numa declaração radiofónica, Bem Gurion apela a que o mundo siga o
seu exemplo.
Com apoio internacional, Israel compra
armamento para se defender e trava uma sangrenta guerra com a
Jordânia. O armistício assinado entre Israel e a Jordânia, a 3 de
Abril de 1949, reconhecia a soberania de cada uma das partes sobre
as zonas conquistadas durante o conflito. Na Declaração de
Estabelecimento do estado de Israel “estende a mão a todos os
Estados vizinhos e aos seus povos, numa oferta de boa vizinhança”.
Em 1956, Nasser sobe ao poder no Egipto
e, ajudado pela Síria e pela Jordânia, faz uma nova investida contra
Israel. as tropas israelitas, ajudadas por franceses e ingleses
ocupam o Sinai. Em Julho de 1967, com a Guerra dos Seis Dias, as
forças israelitas conquistam a zona oriental de Jerusalém aos
jordanos e o Knesset (Parlamento) decreta a reunificação da
cidade. No entanto, não declaram nunca Jerusalém como capital do
Estado. Muçulmanos e cristãos continuam a reclamar a Cidade Santa
como sua também.

Em 1973, durante o Yom Kipur, uma das
festas mais sagradas dos Judeus, o Estado de Israel é novamente
atacado, em duas frentes, por uma aliança de Estados árabes seus
vizinhos. Nessa altura o Egipto recupera o Sinai. A paz é assim
promovida pelos americanos que, assim, permitem aos árabes não
perder a face. Mas só em 1977 a região parece poder encontrar a paz
com a chegada a Jerusalém do presidente egípcio, Anwar Sadat, que
aceita o convite que lhe foi feito pelo primeiro-ministro israelita
Menajem Beguin. Esta visita esteve na origem do Tratado de Paz
assinado entre Israel e o Egipto em 1979 e foi a base para os
famosos acordos de Camp David, mediados pelo presidente
norte-americano Jimmy Cárter, Nestes acordos lançam-se as bases para
a paz no Médio Oriente e traçavam-se as linhas para a
autodeterminação dos palestinianos na Judeia, em Samaria e em Gaza.
Em 1980 uma lei do Knesset
declara que Jerusalém é a “Capital Eterna de Jerusajém”, mas o
Conselho de Segurança das Nações Unidas não reconhece esta
deliberação unilateral (resolução 478 do CSNU). Em 1982, Israel
ataca as bases da OLP (Organização de Libertação da Palestina) no
sul do Líbano, alegando tratar-se de campos terroristas e dizendo
que estava a defender-se dos ataques lançados pelos palestinianos
contra a população civil da Galileia setentrional. A frágil paz
alcançada em Camp David chegara ao fim.
Em 1991, Madrid é o palco da Conferência
de Paz para o Médio Oriente e, pela primeira vez em muitos anos,
Israel, Síria, Líbano e Jordânia e representantes do povo
palestiniano então sentado s á mesma mesa. Este encontro formal é
continuado nos anos seguintes, com conversações bilaterais e
multilaterais e conhece um progresso significativo em 1993, com a
assinatura de uma declaração de princípios entre Israel e a OLP, que
lança as bases para o estabelecimento de uma pátria palestiniana na
margem ocidental do Jordão e na Faixa de Gaza.
A última década do século XX é uma época
de ouro para o Estado de Israel. Judeus e palestinianos assinam
vários acordos que redefinem fronteiras e Israel concorda em
desmantelar vários colonatos em zonas reclamadas pelas Autoridade
Palestiniana. Em 1994, Israel e a Jordânia concordam em dar por
terminado o estado de guerra existente entre os dois países há 46
anos e estabelecem relações diplomáticas. Este facto permitiu uma
maior receptividade de alguns países árabes da região quanto
existência de um estado Judeu . Mas de um lado e de outro, os mais
extremistas opõem-se. Isaac Rabin, primeiro-ministro de Israel é
assassinado em Telavive por um extremista judeu.
Em 2000, os palestinianos recusam-se a
assinar os acordos de Cmp David II. E na Faixa de Gaza começa uma
nova Intifada (Guerra Santa) contra Israel. A subida de Ariel Sharon
ao poder não facilitou o caminho para paz. Os palestinianos
acusaram-no de ter sido o general judeu que massacrou centenas de
palestinianos em campos de refugiados no Líbano. Em 2004, Yasser
arafat morres em Ramalah.

No dia 4 de Janeiro deste ano (2006), o
primeiro-ministro ariél Sharon entrou em coma e, desde então. o seu
estado de saúde tem-se agravado. Agora os judeus vão escolher outro
parlamento, outro primeiro-ministro mas a vitória do Hamas nas
recentes eleições na Palestina fazem prever tempos difíceis para os
judeus que há milhares de anos espera o Messias, a Terra Prometida e
a paz.
Há 16 anos, a Europa gritou de alegria
quando o Muro de Berlim (Muro da Vergonha) foi derrubado e poucas
vozes se ouvem quanto à edificação de um muro com 7 metros de altura
e quase 700 km de extensão. Israel pode ter todos os motivos para a
construção deste muro, mas, certamente, ele constituirá mais um
ponto de colisão entre culturas e religiões que distinguem árabes e
judeus.
PP
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