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Um
velho ditado angolano diz que quem beber da água do Rio Bengo ficará para sempre
ligado a África, não mais de lá saindo. Bebi da água do Bengo. E, como o ditado
diz, fiquei preso àquela terra, de odores, iluminada por um sol cor de salmão.
Terra onde a miséria se confunde com o sorriso da gente alegre e despreocupada.
Vista de avião, Luanda é quase bela.
Longe ainda do lixo, da miséria e do cheiro nauseabundo do esgoto a céu aberto
que é toda a cidade. Uma falta de higiene mais do que suficiente para
impressionar qualquer europeu habituado a conviver com os bairros negros
degradados que envolvem cidades como Lisboa. Um “ghetto” gigantesco, não fosse
maioria das cidades africanas assim.
Curiosamente, esta terra – onde o
primeiro desejo é o de sair dali o mais depressa possível – cativa-nos de tal
forma que, à partida, apetece ficar. Isso acontece, talvez, por causa do clima
estonteante que provoca uma preguiça saborosa.
Luanda lembra uma mulher entregue à
bebedeira e a quem rugas profundas não conseguem apagar traços de uma grande
beleza de tempos idos. É uma cidade sofrida que não deixa de sorrir para quem
com ela convive. É amável e gentil quando tratada com carinho.
À noite, quando o lixo é menos
visível e os odores menos intensos, ergue-se para mostrar a sua silhueta ainda
elegante. Numa derradeira tentativa de recuperar a dignidade e esplendor de
outrora.
Luanda paga sempre um último copo
àqueles que com ela ficam até que o dia venha sempre lembrar a sua decadente
realidade.
A anarquia mais ou menos controlada
que se vive em Luanda permite tudo fazer aos que nela habitam. Angolanos ou
estrangeiros.
O Governo, a braços com uma guerra
que dura há demasiado tempo e que chegou a invadir a capital, nos confrontos de
Outubro de 92, já não sabe o que fazer. E dos encontros de Lusaca não sairá,
certamente, a solução de que Angola tanto necessita. O cheiro de paz que
perfumou o ar desde Bicesse, em 1991, até finais do ano a seguir, não foi o
suficiente para dar descanso aos martirizados pela guerra, pela fome e pela
doença. O povo, que nas suas gerações mais recentes não conheceu outra coisa se
não o sofrimento, continua claramente, apesar de tudo, a apoiar o esforço
inglório do Executivo de José Eduardo do Santos para a democratização e para
paz neste país imensamente rico que já ninguém acredita ser possível recuperar,
do ponto de vista político.
Gravemente atingida por uma profunda
crise geral, Angola vive com leis que ignora. Cumprir e fazer cumprir a lei
depende quase sempre do que cada um pode pagar. A corrupção, completamente
generalizada, está presente em todos os actos da população com o inocente nome
de “gasosa”.
Dizia um deputado da UNITA, na
discussão da lei anti-corrupção, na Assembleia Nacional, recentemente: “...se
vamos castigar os corruptos, teremos que castigar todo o povo. Sabemos que
ninguém vive do seu salário”. Isto mostra bem o estado das coisas.
Desde que Luanda se abriu ao
capitalismo das “notas verdes”, criou-se um tal fascínio pelos dólares que até
os meninos da rua pedem esmola em americano.
A inflação trepa no sentido inverso
ao do valor do novo kuanza (NKz), a moeda nacional, tão torturada como os
que dela dependem. Duzentos mil NKz valem, aproximadamente, 130 escudos e um
ordenado médio pode atingir os dois milhões. Contas feitas ao câmbio do dia do
dólar, dá qualquer coisa como oito dólares, 1.300 escudos. Como referência, devo
notar que um prato num restaurante de vigésima» categoria custa à volta de 500
mil novos kuanzas. Um professor ganha dois milhões.
De contradições está a «grande
cidade» cheia. Não é necessária muita atenção para nos apercebermos da
quantidade de carros a circular pelas ruas esburacadas e fedorentas. Uma das
explicações para este facto é o preço da gasolina ser incrivelmente baixo: cerca
de dois escudos por litro. Com, aproximadamente, 65 escudos pode-se encher o
depósito. 0 maior problema de quem tem carro é a sua manutenção. É
excessivamente cara e torna-se às vezes impossível por falta de peças.
O transporte público de pessoas é
mais ou menos assegurado pelos candongueiros. Particulares que com jipes,
carrinhas e camiões, a cair de podres, transportam gente e mercadorias
impressionantemente comprimidas. Uma quantidade imensa destes agonizantes
veículos, que só Deus sabe com que sacrifício se arrastam, circulam durante todo
o dia para baixo e para cima. Os candongueiros lá vão fazendo andar a cidade, da
mesma forma que vão fazendo andar as suas carripanas.
Andar de carro próprio é um luxo de
uma pequena minoria. E se Luanda está a abarrotar de carros entrados na terceira
idade, não se podem ignorar os últimos modelos das grandes marcas americanas,
europeias e japonesas, Mas mesmo esses bons carros apresentam escoriações. Quase
todos acidentados. Com pára-brisas partidos ou mesmo sem eles. Grande parte
mostrando feridas de guerra, buracos de metralha despreocupadamente remendados e
por pintar. A economia vai andando segura por arames iguais aos que seguram os
motores dos candongueiros. São os estrangeiros, a maioria portugueses, que vão
fazendo o movimento de capitais e recebendo chorudas contrapartidas. E o Governo
de, “Zédu”, sabe que precisa deles como água para beber. Por isso a lei do
Investimento Estrangeiro está todos os dias a ser reformulada no sentido de
facilitar a vida aos empresários.
No entanto, a verdadeira economia de
Luanda funciona no Roque Santeiro, o famosíssimo mercado na periferia da cidade,
que se pode, ironicamente, comparar a qualquer Bolsa de Valores dos países
desenvolvidos. Principal posto abastecedor da cidade, ao Roque Santeiro, vão
parar os produtos roubados dos contentores importados de todo o Mundo. É um
mercado, e não só, ao ar livre onde se cruzam centenas de milhar de pessoas e
são negociados os mais diversos artigos, de primeira, segunda ou terceira
necessidade. Desde alimentos a mobiliário, medicamentos a gado, liamba a pasta
de dentes.
Tudo se encontra no Roque. Sobretudo
perigos para um branco carregando uma panóplia fotográfica, como eu, disposto a
arrancar meia dúzia de imagens para ilustrar este texto. O que só foi possível
graças a dois guarda-costas negros, um deles armado. De outro modo, tenho a
impressão de que eu próprio, e depois de espoliado, apareceria à venda no dia
seguinte como sendo carne de porco. É no Roque Santeiro, que se encontram todos
os desesperados da miséria e da guerra. Nele se refugiam muitos rapazes com mais
de 16 anos, às vezes com menos, para não serem apanhados nas rusgas que os
levarão direitinhos às fileiras das FAA.
No Roque, funciona o maior
"banco privado" de Luanda. É o centro de actividade das kinguílas,
mulheres que ocupam todo o seu tempo a trocar, comprar e vender dinheiro. Kuanzas,
por dólares e vice-versa.
Comércio ilegal de dinheiro que pode
criar sérios problemas ao incauto estrangeiro que às kinguílas recorra
para trocar os seus dólares. Irá certamente preso, assim como a que com ele
esteja a negociar. São elas as donas do câmbio paralelo. Muito superior ao
oficial.
Aparentemente, a actividade das kinguílas.
nada tem de ilegal. Elas estão espalhadas por todas as ruas da cidade, sempre a
contar e recontar maços volumosos de notas de mil NKz perante a indiferença
cúmplice dos polícias que intervêm logo que haja troca de dinheiro.
É pena a impossibilidade de registar
o odor do mesmo modo que se registam imagens em película. Sem o cheiro que o
Roque emana, qualquer fotografia, por muito boa que seja, está longe de o
mostrar tal como ele é na realidade. Muitas vezes tive de tapar as narinas com
as mãos para evitar o vómito. O chão chega ficar empapado por fluidos viscosos e
espessos como petróleo que a terra não se atreve absorver.
Em Luanda, apesar de tudo, ainda é
possível fazer turismo. O que implica uma boa dose de predisposição para
enfrentar situações penosas como a total inexistência de táxis. O mais
semelhante que se pode encontrar são os candongueiros, sempre simpáticos, com os
seus barulhentos e velhos veículos que podem revelar-se uma excelente opção se
contratados à semana.
Há grandes hipóteses de se ter
sérios problemas com a polícia, ou mesmo com os militares, se se pretender
registar recordações fotograficamente. Sem qualquer indicação, há várias zonas
de Luanda que são proibidas a quem pretende «clicar», como o caso da Fortaleza
que é, seguramente, uma das mais belas paisagens sobre a cidade.
Não se deixará de fazer turismo em
Luanda por falta de bons hotéis e restaurantes. Há-os com uma qualidade que
rivaliza com a dos melhores da Europa. É assim o Presidente, da cadeia Le
Merídian, onde o luxo está bem patente em toda a decoração. O serviço é
excelente e a sua cozinha internacional é soberba. Gostaria de saber como
conseguem produtos com a qualidade e frescura que me deliciaram. O vinho,
francês, claro, pareceu-me veludo liquefeito.
O edifício do Presidente é um
dos mais modernos, altos (26 andares) e bem conservados de toda a cidade de
Luanda, beneficiando também de uma óptima localização na Marginal.
Só à saída nos damos conta de que
estamos num país africano, em guerra. Os meninos da rua, quase todos refugiados,
vestidos com trapos que parecem ter nascido com eles, assaltam-nos a oferecer
cigarros, MarIboro e de outras marcas, a duzentos mil novos kuanzas (130
escudos) na eterna esperança de conseguirem o suficiente para comer uma sopa no
fim do dia.
O Tivoli é outro hotel onde
se encontra um serviço requintado. Nele vive o correspondente da RTP, Carlos
Albuquerque. E também nele me cruzei, mais do que uma vez, com Sousa Cintra,
presidente do Sporting.
Comi no Tivoli a melhor
maionese de lagosta. Não resisti ao leitão angolano, a cujos calcanhares não
chegam os nossos Bairrada e Negrais. No fim, fica-nos um indigesto remorso por
não se ter dividido o repasto com dois milhões de gente com fome.
Vinte metros abaixo do hotel,
"ataca" um grupo de jovens prostitutas, mulatas muito belas e nunca com mais de
17 ou 18 anos, que por um milhão de novos kuanzas, 650 escudos, oferecem a
possibilidade de uma delirante noite de amor africano. Qualquer uma dessas
raparigas teria um futuro brilhante na Europa como modelo. Só que a sorte delas
é a mesma má sorte de todo o povo angolano.
Na ilha de Luanda, uma língua de
areia que se estende em frente à baía, digladiam-se novamente os contrastes
entre a pobreza absoluta e o luxo do Norte. Medeia o conflito a beleza natural
desta península com nome de ilha.
No seu dorso ocidental ficam as
melhores praias da cidade, só superadas pelas do Mussulo (uma ilha paradisíaca,
20 quilómetros para sul, frequentada por homens de negócios de Luanda ou de
passagem por ela). Mesmo no fim da extensão da Ilha de Luanda, ficam dois bares
restaurantes de construção tropical e que nos confundem a respeito do local onde
nos encontramos. O Barracuda e o Afrodisíacos. Ambos com
esplanadas magnificas debruçadas sobre as águas do Oceano Atlântico Sul. Nos
dois, a conta é apresentada em dólares, mas apenas o Barracuda aceita
cartões de crédito.
Entre a "ilha" e a cidade, no meio
da baía, temos a presença permanentemente monstruosa e estranha de uma sonda da
Petrobrás. Esta plataforma petrolífera gigantesca é ainda mais perturbadora
quando vista por entre as palmeiras da ilha e batida pela luz vermelha do sol
cor de salmão do fim da tarde.
A noite vem sempre realçar a beleza
da cidade. Como que maquilhada, Luanda liberta-se um pouco do lixo, que deixa
quase de se ver, e o seu cheiro fica mais suave. Como se a cidade tivesse parado
de transpirar com o fresco da cacimba.
A baía, muito iluminada, parece
pertencer agora a uma qualquer cidade desenvolvida. Apenas o facto de a Marginal
estar praticamente deserta às 21 horas faz suspeitar que nem tudo está bem.
As gentes de Luanda «investem tudo»
nas noites do fim-de-semana, É sexta-feira e a grande noite (três como se fossem
uma só) vai começar daqui a pouco. Poderá ser no bar do Jorge, Noites Quentes,
no Terraço, no Bar do Mi ou no Navio, mas de certeza que
vai acabar, se necessário, com tiros pelo meio, no grande, no fabuloso, no
incrível, Pandemónio. A mais in discoteca de Luanda. O seu nome
espelha o que vai dentro ela.
Uma festa total que dura enquanto a
noite quiser. A música é muito boa, no seu género “vê se te mexes”. E quando o
não é, um charro faz dela um hino ao prazer de “bem curtir”. Não vá a guerra
surgir, novamente, pela cidade quando a manhã chegar.
No Pandemónio é urgente viver
a noite como se fosse a última vez. Com euforia e paixão. Com todo o suor que se
possa libertar do corpo deitando por terra, às quatro da manhã, os últimos
vapores de perfume francês posto em honra do "deus Pandemónio".
São assim as noites de Luanda, e
também nos musseques (bairros mais pobres) que envolvem o "grande musseque", a
kizomba, se dança de sexta a domingo. Enquanto a cerveja durar, a festa está
garantida. As mulheres não têm dono nem senhor e todos lhes têm direito. Para os
meninos da rua ficam donativos ebriamente generosos.
Eu tive de sair no meio da festa
para regressar a Lisboa. No entanto, o feitiço do Bengo cumpriu-se. Fiquei
ligado àquela terra mágica, onde dias curtos dão mais tempo à noite que nos
permite tudo desfrutar.
Beberei da água do Bengo sempre que
tiver oportunidade.
João PEDRO PALMA
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